Richard Gräf publica homilias
proferidas durante a segunda guerra mundial (1939-1945) e depois, sob o impacto
dos sofrimentos causados pelo estado de guerra. Serão, a seguir, apresentados
os mais belos trechos deste livro: o amor de Deus e o sofrimento, a justiça
divina, a expiação, a oração e a dor...
* * *
Richard Gräf é
um sacerdote alemão que proferiu homilias sobre o sofrimento humano durante a
segunda guerra mundial (1939-1945) e depois; sob o impacto do sofrimento, descobriu
profundas verdades, que serão explanadas nas páginas seguintes.
1. Amor e justiça de Deus
O problema da
dor é de certo o maior e o mais grave dos que se apresentam ao homem.
"Quem não vencer a dor, não vencerá a vida" (p. 5)
Não obstante,
na raiz de cada um de nós, como na origem da criação, há um ato de amor divino.
Com efeito;
Deus é amor. E, assim como o sol não pode reter em si todo o seu calor e
fulgor... assim também Deus não pode ocultar a sua plenitude de amor... É
exatamente essa sua exuberância de amor que o levou a criar.
Em virtude
desse amor Deus não abandona o homem pecador, mas sacrifica o próprio Filho não
somente pela humanidade em geral, mas por cada um de nós. Ele a ninguém
esquece.
Se Deus é
amor, como falar de um "Deus justiceiro"? - Na verdade, quando Deus
permite que o homem acarrete sobre si o castigo do pecado ou quando o põe à
prova, Ele o faz para corrigir e prevenir. Seja lembrada a advertência de Hb
12, 3-10: o filho bem-amado é corrigido e castigado pelo pai, para que aprenda
os bons costumes; o filho bastardo, pelo qual o pai não se interessa, é que é
deixado solto. O amor verdadeiro não pode responder sempre "Sim";
quando necessário, tem de saber dizer "Não". Deus quer e quererá
sempre o bem do homem. É São Paulo quem observa: "Se a minha carta vos
causou dor... não me arrependo disso... Agora alegro-me não por ter-vos
entristecido, mas porque a vossa tristeza vos levou à penitência" (2Cor 7,
8s).
Pergunta-se
então: se Deus é perfeito, porque não criou um mundo em que não houvesse mal
algum? - Em resposta dir-se-á: o mal não é um ser, mas é a ausência de um ser
devido (assim a cegueira no homem é um mal, porque ele foi feito para ter
olhos, mas a cegueira na pedra não é um mal, porque a pedra não foi feita para
ter olhos). A causa dessa lacuna que é o mal, não pode ser Deus (que nunca age
de maneira imperfeita), mas é a criatura, que, limitada como é, está sempre
ameaçada de falhar; uma criatura que não possa falhar, é impossível; só
existiria se Deus interviesse constantemente para evitar as quedas da(s) sua(s)
criatura(s). É impossível existir uma criatura infalível por si mesma.
"É o
amor, e não a justiça, que leva Deus a chamar-vos para tomar parte na dor do
seu Filho; e, quanto maior é o sofrimento, maior é a prova de misericórdia.
Estas palavras não são uma consolação barata; são a verdade em toda a sua
plenitude" (p. 35).
"Tudo o
que Deus faz, está certo. Quem observa apenas o lado superficial, nunca poderá
compreender esta verdade: a vida é uma breve passagem, um breve período de
provação... Como pode alguém compreender a alegria do semeador se não conhece a
alegria da colheita? A dor e a felicidade estão tão interligadas como a
semeadura e a colheita. Deus destinou-nos a um papel no teatro do mundo sem nos
consultar, mas fê-lo com sábia ponderação e não ao acaso" (p. 35).
2. Alegria na dor
"Deus
criou-nos para a alegria e a felicidade... O pecado dos nossos primeiros pais
trouxe, porém, ao mundo... o sofrimento..., mas a natureza humana continua como
dantes, feita para a alegria... Para a maioria dos homens a dor física apaga a
alegria no coração; por isto Deus já se satisfaz quando aceitamos os
padecimentos com paciência e resignação. Mas seria muito bom que conseguíssemos
receber todo sofrimento com alegria". Deus ama a quem dá com alegria (2Cor
9, 7).
Isto não
significa que devamos procurar a dor. A salvação não está na dor em si. Não
podemos procurar a santificação através da dor, como fazem os faquires
indianos. Na véspera de sua Paixão, o Senhor Jesus quis comunicar aos
discípulos a sua alegria divina: "Disse-vos estas coisas (a alegoria da
videira) para que a minha alegria esteja em vós, e vossa alegria seja
plena" (Jo 15, 11).
Temos de
proceder com decisão e não recuar covarde e dolorosamente perante qualquer
sacrifício que de nós seja exigido, ou perante cada obstáculo que se levante á
nossa natureza" (pp. 95-99).
3. O sofrimento e a oração
A oração é a
atividade mais elevada do homem porque é união com Deus. A miséria ensina a
rezar... Quanto maior for a miséria, mais urgente será a necessidade de
pedirmos auxílio... Todas as nossas orações serão ouvidas, se tiverem por fim a
glória de Deus, a salvação da nossa alma ou a dos outros. Mas, quando pedimos a
Deus que nos alivie o sofrimento, não temos a mínima ideia do que é bom para
nós. O que às vezes julgamos que é para o nosso bem é para o mal e o que julgamos
que nos prejudica, só nos faz bem! "Se estiverdes doentes, não prescrevais
ao médico o remédio que vos faz bem" (S. Agostinho).
Eis três casos
significativos que a Bíblia nos aponta:
Satanás pediu
a Deus a autorização para tentar Jó; o Maligno queria mostrar a Deus que os
santos só lhe são fiéis enquanto o Senhor os abençoa e enriquece. Deus permitiu
a Satanás que maltratasse Jó; este permaneceu fiel a Deus, de modo que Satanás,
sem o prever, cavou a sua própria derrota e Jó foi altamente recompensado (Jo
1, 11; 2, 5; 42, 10).
No Novo
Testamento o Senhor não atendeu às súplicas de seu grande Apóstolo Paulo, que
rogou três vezes fosse libertado de um espinho na carne, um mensageiro de
Satanás que o esbofeteava; respondeu-lhe o Senhor: "Basta-te a minha
graça, porque é na fraqueza que se manifesta por completo o meu poder";
daí dizer o Apóstolo: "Quanto mais fraco me sinto, então é que sou
forte" (2Cor 12, 7-10).
As duas irmãs
Marta e Maria enviaram mensageiros a Jesus, dizendo: "Senhor, aquele que
tu amas (Lázaro) está doente"; Jesus não se pôs imediatamente a caminho
como esperavam as duas irmãs, mas esperou quatro dias: Lázaro morreu - o que
muito entristeceu as irmãs. Somente depois de morto Lázaro, Jesus se fez
presente para o ressuscitar "para a glória de Deus, a fim de que o Filho
de Deus seja glorificado" (Jo 11, 1-44). Jesus demorou, mas fez mais do
que as irmãs esperavam.
Pode-se citar
ainda o caso de Jesus, que pediu ao Pai que o isentasse do cálice da Paixão,
mas que não foi atendido nesta proposta, porque o Pai lhe tinha reservado muito
mais do que a dispensa de morte violenta; Jesus morreu na Cruz, mas ressuscitou
e tornou-se o Senhor dos vivos e dos mortos.
Assim também a
nós, o Senhor faz esperar, e durante muito tempo: "Até quando, Senhor,
clamarei e não me escutareis?" (Hab 1, 2). Ouvir-nos-á quando chegar a
hora (Is 49, 8; 2Cor 6, 2). Por vezes deixa que sintamos as ameaças de um
naufrágio, mas nunca permite que nos afoguemos (Mt 14, 28-32).
Como é difícil
esperar! Somos impacientes e queremos tudo imediatamente... Mais difícil ainda
é esperar sob o fardo da cruz, quando nada mais podemos fazer. Mas é então que
as almas se purificam, muito mais do que através de uma imensa atividade. Saber
esperar é a arte da vida, a arte da santificação, porque esperar serenamente
quando as dores nos afligem exige mais energia, mais força de vontade do que
para agir (pp. 111-118).
4. A dor que faz crescer
Ser grande nas
coisas grandes não é difícil, porque nos atrai a grandeza da missão, mas sê-lo
nas pequenas coisas, isso sim, é verdadeira grandeza e verdadeira santidade. É
este caminho pequeno e obscuro da fidelidade no cumprimento dos deveres cotidianos
que conduz à santidade.
Em muitos
homens Deus tem de remover o entulho antes de começar a edificar. Para a
salvação de alguns, torna-se mesmo necessário que não tenham êxitos externos,
apesar da sua boa vontade. São aqueles que se têm em grande conta, que se
julgam superiores, capazes de beber o cálice com o Senhor (Mc 10, 38s), de O
acompanhar até a prisão e a morte. Os êxitos visíveis tornam-nos ainda mais
vaidosos e eles se afastam cada vez mais de Deus. Alguns precisam de ficar
cegos para começar a ver: "Para mim foi bom que me humilhasses, Senhor"
(SI 118, 71). A derrota externa é muitas vezes condição fundamental para a edificação
interior" (p. 91-93).
5. Expiação
Expiação é um
ato inspirado pelo amor, que renova a comunhão com Deus violada pelo pecado.
Cada um(a) deve fazê-lo, tendo em vista os seus pecados próprios, mas também
pode fazê-lo em vista dos pecados alheios. Cristo deixou-nos o exemplo da
expiação em favor da humanidade; diz São Paulo: "Ele me amou e se entregou
por mim" (Gl 2, 20). Por isto o Apóstolo podia afirmar: "Alegro-me
nos sofrimentos que suporto por vós" (Cl 1, 24). Ora o cristão é chamado a
participar da expiação prestada por Cristo; como fazem os Santos em geral.
Existe, sim, entre nós, humanos, uma comunhão ou solidariedade que nos torna
responsáveis pelo bem do próximo. Diz textualmente o Pe. Gräf:
"Considerado
isoladamente, cada ser humano constitui um universo mais rico e mais valioso
aos olhos de Deus do que todo o resto da criação, mas é, ao mesmo tempo, um
membro da humanidade... Assim como numa tapeçaria são muitos fios que formam o
todo, assim também nós, humanos, estamos reunidos num conjunto... Na vida
civil, exercemos uma profissão que está condicionada pelo interesse comum. O
mesmo acontece no plano sobrenatural, o cristão tem um papel e uma missão que
implica uma responsabilidade perante o todo pecaminoso ou virtuoso; todo ato
humano se reflete nos outros. Disse-o aliás o próprio São Paulo: "Se um
membro sofre, todos os membros sofrem com ele; se um membro recebe glória,
todos os membros se regozijam com ele" (1Cor 12, 26).
É frequente
ouvir dizer que os tempos são maus. Mas será justo falar assim? Acaso não
brilha sempre o mesmo sol, não sopram os mesmos ventos... O mal não está na
terra, no mar, no ar ou no fogo. O mal está em nós. Não são os maus tempos que fazem
os homens maus, mas, bem ao contrário, são os homens maus que fazem os maus
tempos. Tornem-se homens bons e os tempos serão outros (pp. 53-56).
Este artigo
não é mais do que uma coletânea de reflexões e afirmações do Pe. Ricardo Graf
em seu livro "O cristão e a dor", cujas páginas transcritas são
indicadas no decorrer da explanação.
ÍNDICE