11 de fevereiro de 2017

Um romance, mas não uma obra de ficção


Franz Werfel
Tradução de Marina Guaspari
Edição de 1953 - 372 págs



UM PREÂMBULO PESSOAL
Nos últimos dias de junho de 1940, após a, derrocado, da França, abandonando o nosso domicílio, chegamos a Lourdes, no sul do país. Nós, eu e minha, mulher, pretendíamos alcançar oportunamente Portuga, através da fronteira espanhola. Como, porém, as autoridades consulares nos negaram os vistos necessários, na, noite em que tropas alemãs  ocupavam a cidade fronteiriça, de Hendaya, não nos restou senão — e com grande dificuldade — procurar um abrigo no interior da França.
O departamento dos Pireneus convertera-se num fantástico acampamento do caos. As multidões desse êxodo singular vagueavam nos caminhos, abarrotavam cidades e aldeias; franceses, belgas, polacos, holandeses, tchecos, austríacos, alemães exilados misturavam-se com os soldados do exército vencido. Mal havia com que saciar a fome. E em parte alguma se encontrava pousada. Quem lograva conquistar uma poltrona, para passar a noite, era objeto de funda inveja. A falta de combustível imobilizava longas filas de autos de fugitivos, transbordantes de utensílios domésticos, de colchões, de camas.
Em Pau, uma família do lugar informou-nos que Lourdes era o único sítio onde uma pessoa favorecida pela sorte podia talvez conseguir abrigo. Como a famosa cidade ficava apenas a uns trinta quilômetros, aconselharam-nos a tentar a aventura e bater-lhe às portas. Seguindo o alvitre, encontramos finalmente hospedagem.
Foi assim que a Providência me encaminhou para Lourdes, de cuja história maravilhosa eu tivera, até aí, uma noção bem superficial. Passamos várias semanas, escondidos nessa cidade dos Pireneus. Foi um período angustioso, mas ao mesmo tempo de suma significação para mim, pois ali tomei conhecimento da história extraordinária da jovem Bernadette Soubirous e da prodigiosa veracidade das curas de Lourdes.
Um dia, na minha aflição, fiz uma promessa; se conseguisse sair dessa situação desesperada e alcançar a costa salvadora da América, o meu primeiro trabalho seria cantar, melhor que  pudesse, a canção de Bernadette.
Este livro é uma promessa cumprida. No nosso tempo, um canto épico só pode assumir a  forma dum romance. A “Canção de Bernadette” é um romance; não, porém, uma obra de ficção. Diante dos fatos, que nela se narram, o leitor desconfiado poderá, com toda a razão, perguntar — como outrora, ante a epopeia histórica:
— É verdade ou invenção?
E eu respondo:
— Os fatos memoráveis, que formam o conteúdo deste livro, aconteceram realmente. Como o princípio deles remonta só a oitenta anos atrás, desenrolaram-se em plena luz da História, e a sua veracidade é atestada por fautores e adversários, bem como por observadores desapaixonados. A minha narrativa em nada altera essa verdade. Tomaram-se apenas em consideração os direitos da liberdade poética, onde a obra de arte exigia certas condensações cronológicas, ou quando importava arrancar à matéria a centelha da vida.
Ousei cantar a canção de Bernadette, embora não seja eu católico e sim judeu. Deu-me ânimo para este empreendimento um voto bem antigo e muito mais instintivo: já quando compunha os meus primeiros versos, eu jurava a mim mesmo glorificar, sempre e por toda parte, mediante os meus escritos, o mistério divino e a santidade humana — a despeito da época, que se desvia com escárnio, raiva e indiferença desses valores supremos da nossa existência.
Los Angeles, maio de 1941.
Franz Werfel


~ * ~
Um preâmbulo pessoal
PRIMEIRA SÉRIE
Evocação do dia 11 de Fevereiro de 1858
SEGUNDA SÉRIE
"Queira a Senhora ter a Bondade"
TERCEIRA SÉRIE
A Fonte
QUARTA SÉRIE
As Sombras da Graça
QUINTA SÉRIE
O Mérito da Dor

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