07 julho, 2020

Liturgia para as famílias ➜ “Pedagogia Eucarística”


Padre N. de Campos
Edição de 1962 - 193 págs

Reformatado a partir do ORIGINAL


A RAZÃO DESTE LIVRO
No altar diante do qual contraíram Matrimônio Maria Teresa de Áustria e Francisco José de Lorena, lia-se um grande dístico: Eucaristia. Hic Austriae vita. (É na Eucaristia que está a vida da Áustria). A imperatriz Maria Teresa conservou-se sempre fiel a tão bela legenda. Certo dia, ao receber a notícia de que seus filhos se haviam exposto à morte para defenderem, de um ataque de hereges, o sagrado Viático, exclamou: “Dou graças à misericórdia divina pela vitória, mas a minha felicidade seria ainda maior, se os meus dois filhos tivessem podido sacrificar a vida e derramar o sangue em defesa do Santíssimo Sacramento”.
Este livro deseja ter como fim principal incentivar na alma das mães e dos pais, e, mediante eles, também na dos filhos, a partir dos primeiros anos, um amor semelhante à Eucaristia. Algumas vezes, para o conseguir mais facilmente e ajudar os esposos a compreenderem melhor a dignidade e excelência do seu estado, recordaremos a relação existente, sob vários aspectos, entre a vida matrimonial e a devoção eucarística. Não é propriamente um paralelo que vamos estabelecer entre o Sacrifício da Missa, com tudo o que ele nos dá, e o Matrimônio católico, nem quanto à essência de um e de outro, nem quanto aos efeitos que produzem nas almas; queremos apenas desdobrar e pôr bem em foco os passos mais salientes da liturgia desse augusto Sacrifício, comparando-os, aqui e além, com outras tantas situações, ideais e problemas das pessoas casadas.
As linhas que vão seguir-se destinam-se, em primeiro lugar, aos esposos, na sua qualidade de marido e mulher, que nelas encontrarão alguma ajuda a fim de realizarem, em si, com a graça de Deus, a perfeição da vida matrimonial e alcançarem, por este caminho, a plenitude do amor, aproveitando para sua santificação os meios que a própria família oferece (Pio XII, aos membros de uma peregrinação espanhola de famílias, em 1958); em segundo lugar, destinam-se aos mesmos esposos, enquanto pai e mãe, no desempenho da sua missão nobilíssima de educadores, porque, se há uma ideia que deve ser inculcada nos filhos, é a da função que em nós desempenha a Eucaristia como arma imprescindível nas grandes batalhas que temos de travar contra inimigos poderosos e astutos, desde os primeiros anos de nossa existência. Meditando na liturgia da Missa e vivendo-a sinceramente, com espírito de fé, estarão todos em condições de formar os filhos — tarefa que, nos primeiros anos, caberá não só, mas especialmente, às mães — numa escola de autêntica piedade cristã. Os pais compreenderão quanto o seu difícil trabalho ficará aliviado com o recurso àquilo a que podemos bem dar a designação de “pedagogia eucarística”. Nem sempre se farão referências à vida conjugal ou familiar. Porém tudo nesta exposição foi escrito com a intenção de despertar nos leitores a consciência do muito que a família pode robustecer-se junto do altar e de quanto se tornará devedora à Igreja Católica, se abrir as portas do lar aos benefícios que ela, prodigamente, distribui.
A formação religiosa dos filhos requer um esforço continuo e é obra, a um tempo, dos pais, dos sacerdotes e dos mestres. Convém, todavia, não esquecer que os primeiros educadores e catequistas dos filhos — primeiros, em qualquer sentido — são o pai e a mãe. Não estarão eles, muitas vezes, em condições de bem se desempenhar deste dever. Por isso, quisemos também ajudá-los. O que há de fundamental no Dogma foi aqui abordado, a propósito de uma ou outra passagem da Liturgia: os mistérios da Santíssima Trindade e da Redenção, a Graça, o Espírito Santo, o pecado original, a Virgem Maria, os Sacramentos, o Interno, o Purgatório, a Igreja, etc. Partindo do concreto, que é a trama das cerimônias da Missa, procuramos alcançar o mais puro e abstrato das verdades da fé.
Alguns dirão, talvez, que não é possível ou, em todo o caso, aconselhável ensinar às crianças, desde tenra idade, verdades tão profundas e inacessíveis à mente humana. Este erro andou muito em voga, tendo sido necessária, para lhe pôr cobro, uma intervenção recente e enérgica da Santa Sé. Segundo ensinavam alguns pedagogos, na primeira idade da razão, ministrar-se-ia apenas uma parte do Dogma, deixando de lado inteiramente aquelas verdades cujo sentido se julgava não estar ao nível da inteligência infantil, as quais só mais tarde seriam comunicadas. Era isto copiar, com demasiado servilismo, para o ensino da Revelação divina, o método em uso no ensino das ciências profanas; era — observou o Cardeal Feltin, de Paris — não ter suficientemente em apreço, nos trabalhos de apostolado, a ação da Graça. A Congregação do Santo Oficio, que vela pela ortodoxia da fé, não hesitou em denunciar semelhante processo, apesar de saber que era perfilhado, com todo o ardor, pela Comissão Nacional do Ensino Religioso da França, dependente dos Bispos. A intervenção de Roma somente transpirou para o público por meio de um comunicado da Comissão Episcopal do Ensino Religioso, em fins de setembro de 1957, mas nem assim deixou de causar forte impressão nos círculos católicos franceses, pois não fora possível esconder o que havia por detrás desse comunicado. A Igreja insistiu em que o ensino do Catecismo inclua, desde o início, todas as grandes verdades reveladas por Deus, devendo só a explicação das mesmas ser progressiva, de acordo com as idades. Pelo que sabemos, também no Brasil e em Portugal, assim como noutros países da Europa e da América, se incidiu um pouco no referido erro, que dissimula, sob as aparências de um avanço pedagógico, um perigoso recuo. Em face disto, se há de recomendar aos pais e mães que procurem instruir os filhos em toda a incomensurável riqueza do Cristianismo, cientes de que, seja onde for, e mais ainda na alma das criancinhas, atua, sem cessar, a Graça de Deus.
A Liturgia (do grego: leiton, público, e ergon, obra, serviço — o serviço público por excelência prestado pela Igreja a Deus, o culto oficial) é um apreciável meio de instrução religiosa, a que deram já, com razão, o nome de “teologia do povo”. Diz a encíclica Mediator Dei que a Liturgia não determina nem constitui, em sentido absoluto e por virtude própria, o Dogma, conforme se poderia concluir de uma interpretação errônea do célebre aforismo: lex orandi, lex credendi (a norma de orar é a norma de crer), usado também sob esta outra forma: legem credendi lex statuat supplicandi (a norma de rezar deve estabelecer a de crer), repetido pelos teólogos há mais de 1.500 anos; mas não deixa ela de ser um escrínio precioso das verdades da fé, enquanto testemunho público da crença da Igreja ao longo dos tempos. É neste sentido que a Liturgia constitui uma fonte teológica, onde descobrimos argumentos e explicações valiosíssimas em favor da fé. Achamos, portanto, que será sumamente vantajoso, quando um grande Pontífice classifica de “indecorosa” a ignorância de tantos acerca do mistério sublime dos nossos altares (alocução de Pio XII aos párocos e pregadores de Roma, na Quaresma de 1949), mostrar alguns pontos do desenvolvimento histórico da liturgia da Missa, dando aos leitores a oportunidade de formarem uma ideia geral das questões mais importantes e de tomarem consciência da imensa Família cristã a que pertencemos, cujos membros de há vinte séculos rezavam já orações e praticavam ritos que ainda hoje continuamos rezando e executando quase da mesma maneira.
Só do santuário das famílias verdadeiramente cristãs poderá vir a salvação de que o mundo carece. Foi por essa razão, dizem, que a vida pública de Jesus Cristo começou nas bodas de Caná, na Galileia, onde realizou o prodígio de mudar a água em vinho. Esperemos de Deus que um número cada vez maior de famílias cristãs, unidas pelo mesmo ideai e fortalecidas pela intercessão de Maria — não têm vinho... — possa agora transformar, num novo milagre, toda a face da terra. “O reino dos céus é comparado a um rei que celebrava as bodas do filho. Enviou seus servos para chamar os convidados, mas eles não quiseram vir”. (Mt 22, 2-3). O mesmo convite, Deus, que é o rei da parábola, o dirige a todos. E quão poucos são aqueles que, na hora aprazada, não inventam alguma escusa! Em 1958, na Cidade do México, durante a XII Assembleia Nacional da Ação Católica daquele país, exprimiu-se o voto de que a nossa época venha a ser, um dia, denominada “o século dos Santos casados”. Atualmente, fala-se muito, com efeito, da santidade da vida matrimonial, ou, por outras palavras, da santificação por meio do matrimônio; estuda-se, como nunca se estudou, sob vários ângulos, o que chamam de “mística do casamento”. Não estamos diante de uma invenção ou descoberta da Teologia moderna. Trata-se de uma construção laboriosa a que nos conduziu o trabalho de muitas gerações passadas. O Dogma cristão, na sua projeção externa, é como um rio, que aumenta à medida que corre; o depósito da fé não é um depósito estático, mas dinâmico, pela força do Espírito que opera nele, fazendo recuar, cada vez mais, a linha do horizonte. Há, então, fundadas esperanças de que o desejo manifestado no México venha a ter realização breve, isto é, de que no festim das grandes bodas do reino dos céus tomem assento, em número incalculável, e numa proporção nunca dantes atingida, aqueles que, levados também por santa vocação, celebraram primeiro as suas bodas terrenas.
Resta-nos dizer que, embora o presente trabalho seja dirigido a todos os casais católicos, ele o é, de modo especial, aos casais do movimento “Equipes de Nossa Senhora", fundado em França pelo padre Henri Caffarel e agora em plena expansão por quase todo o mundo. Foi em reuniões desses casais que tomamos a resolução de o levar a cabo, e pudemos avaliar melhor da sua oportunidade. Assim, pois, o mérito deste livro, se algum tiver, a eles, que não a nós, deve ser referido.
O AUTOR

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